Historiadores de Viseu Global

Historiadores de Viseu Global João de Barros António Cândido de Figueiredo(1846-1925) António Cândido de Figueiredo nasceu a 19 de setembro de 1846, na freguesia de Lobão da Beira, concelho de Tondela, distrito de Viseu. Poeta, intelectual, lexicógrafo e estudioso de línguas orientais, pertence a uma geração de eruditos oitocentistas que procuravam conciliar o romantismo literário com o racionalismo científico. Em 1863 iniciou os estudos de Teologia no seminário de Viseu, concluindo o curso a 19 de junho de 1869. Durante esses anos, revelou uma vocação simultaneamente literária e filológica: publicou o volume de poesias Quadros Cambiantes (1867) e fundou, nesse mesmo ano, a Gazeta da Beira, jornal que se destacou no panorama cultural regional, revelando afinidades com o espírito de modernização literária que animava figuras como Camilo Castelo Branco ou Ramalho Ortigão. Matriculou-se em seguida na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (1869–1874), onde se aproximou do ambiente intelectual que rodeava o Instituto de Coimbra — publicação científica e literária fundada em 1852 e centro de efervescência orientalista. A partir de 1871, como sócio efetivo, publicou vários artigos sobre a Índia antiga e literatura sânscrita. Em 1873, traduziu e adaptou um episódio do épico hindu Rāmāyana, sob o título Morte de Yaginadatta (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1873), obra que se inscreveu na coleção “Litteratura da India”. A escolha não era casual: a literatura sânscrita fascinava os intelectuais europeus desde as traduções de Friedrich Schlegel e Max Müller, e o jovem português seguia de perto esse movimento. O seu entusiasmo, porém, encontrou resistência. Guilherme de Vasconcelos Abreu — o pioneiro da sanscritologia portuguesa — publicou no Jornal do Commercio (dez. 1873) uma crítica dura, apontando “erros palmares” na transcrição de termos e uma “falta de cor local”. A polémica prolongou-se durante semanas, revelando não apenas uma disputa académica, mas também a tensão entre o autodidatismo criativo e o rigor filológico que caracterizava a ciência do século XIX. Nesse contexto, surge a figura curiosa de João Feliciano Gonçalves Cardoso, goês formado em Bombaim e professor de sânscrito de Cândido de Figueiredo, que depois se tornaria adido do governador de Cabo Verde, Vasco Guedes. Cardoso integrava a Sociedade Asiática Italiana, presidida por Angelo De Gubernatis, o que demonstra que a rede orientalista portuguesa, embora modesta, estava conectada a circuitos europeus de investigação. Apesar das críticas, o trabalho de Figueiredo chamou a atenção de intelectuais como Joaquim Possidónio Narciso da Silva, fundador da Associação dos Arqueólogos Portugueses, e do japonólogo Léon de Rosny, criador dos Congressos Internacionais de Orientalistas. A correspondência entre eles, hoje preservada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, testemunha o reconhecimento internacional do jovem erudito. Após o período coimbrão, António Cândido de Figueiredo dedicou-se sobretudo à lexicografia. O seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1899) tornou-se referência incontornável no ensino e na normalização ortográfica, ao lado de obras de contemporâneos como Cândido de Figueiredo, Gonçalves Viana e Adolfo Coelho. Em plena viragem para o século XX, o dicionário refletia o ideal positivista de organizar o conhecimento e disciplinar a língua — uma tentativa de domesticar o caos criativo da palavra, à maneira dos encyclopédistes franceses. A par da sua obra lexicográfica, Figueiredo manteve-se poeta e tradutor, alimentando um diálogo constante entre o Oriente e o Ocidente, entre o sagrado e o filológico. Na sua Morte de Yaginadatta ecoa o exotismo espiritual que seduzira Victor Hugo em Les Orientales (1829), e que Eugène Delacroix transformara em cor e movimento nas telas orientalistas do Louvre. O interesse de Figueiredo pelo Oriente aproxima-o, assim, de uma sensibilidade estética europeia que via na Índia uma “fonte de sabedoria primordial”, como escreveria Ananda Coomaraswamy décadas mais tarde. António Cândido de Figueiredo foi um humanista curioso e inquieto — um dos raros intelectuais portugueses do século XIX que tentou abrir pontes entre a erudição europeia e a cultura indiana. Viveu entre a poesia e o dicionário, entre o entusiasmo do tradutor e o rigor do gramático. Mais lembrado hoje como lexicógrafo do que como poeta ou orientalista, Cândido de Figueiredo encarna uma fase de transição: a passagem de uma cultura literária romântica para uma ciência filológica moderna. As suas disputas com Vasconcelos Abreu ou os ecos franceses e goeses da sua obra revelam o esforço — e também a solidão — de quem procurou, a partir de Coimbra, decifrar as palavras do outro lado do mundo. O seu percurso, que vai de Quadros Cambiantes (1867) ao Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1899), é o retrato de uma mente enciclopédica que acreditava que compreender uma língua era compreender uma civilização. Num tempo em que Portugal oscilava entre a nostalgia imperial e a ânsia de modernidade, Cândido de Figueiredo foi, talvez, o mais oriental dos nossos dicionaristas — e o mais rigoroso dos nossos poetas. Referências Obras de António Cândido de Figueiredo: • Quadros Cambiantes (Viseu: Tipografia da Gazeta da Beira, 1867). • Morte de Yaginadatta (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1873). • Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1899). Fontes literárias e científicas: • Abreu, Guilherme de Vasconcelos. “Nota crítica à tradução de Cândido de Figueiredo.” Jornal do Commercio, Lisboa, 1873. • Blanc, Th. “Études sur la littérature indienne au Portugal.” Annales de philosophie chrétienne, Paris, 1875. • Moura, Vítor de. O Orientalismo Português e o Sânscrito em Coimbra (século XIX). Lisboa: Centro de Estudos Clássicos, 2008. • Rocha, Clara. Revistas Literárias do Século XIX. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1985. Referências literárias e pictóricas associadas: • Hugo, Victor. Les Orientales. Paris: Gosselin, 1829. • Delacroix, Eugène. Femmes d’Alger dans leur appartement (1834). Museu do Louvre, Paris. • Coomaraswamy, Ananda. The Dance of Śiva: Essays on Indian Art and Culture. New York: Sunwise Turn, 1918. • Said, Edward. Orientalism. New York: Pantheon Books, 1978. Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo 1744–1822 Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (1744–1822), nascido em Gradiz, Aguiar da Beira, é uma daquelas figuras discretas mas absolutamente decisivas para a cultura portuguesa. Investigador incansável, franciscano observante, historiador, paleógrafo por instinto e orador sagrado de renome, deixou-nos um legado que ainda hoje sustenta grande parte dos estudos de história medieval, linguística histórica e documentação portuguesa. A sua obra mais emblemática é o famoso Elucidário (1798), cujo longo subtítulo já anuncia a ambição iluminista da época:“Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usarão, e que hoje regularmente se ignorão…” Na prática, trata-se de um dicionário histórico, uma tentativa pioneira de salvar do esquecimento palavras e expressões usadas nos textos administrativos, religiosos e literários da Idade Média e do início da Modernidade. É uma obra irmã dos grandes repertórios lexicográficos europeus da época — como o Glossarium de Du Cange (1678) — e continua, ainda hoje, sem equivalente direto em Portugal. Embora frei Joaquim fosse franciscano, o seu trabalho está em sintonia com o espírito científico do final do século XVIII — o mesmo ambiente intelectual que viu nascer a Real Academia das Ciências de Lisboa (1779), de que foi sócio. A época respirava o desejo de organizar, classificar e preservar o conhecimento, como se vê nas Encyclopédies francesas e na própria coleção de manuscritos que Frei Joaquim reuniu. Muitos dos seus manuscritos encontram-se hoje na Biblioteca Municipal de Viseu, enquanto o original do Elucidário repousa no Museu Britânico, um detalhe que revela o reconhecimento internacional do seu valor. Frei Joaquim trabalhou na Torre do Tombo, onde deixou contribuições essenciais para a leitura e certificação de documentos históricos. Num texto de 1803, é apresentado com uma enumeração quase barroca: “Religioso professo (...), leitor jubilado, escriptor público, Sócio da Real Academia de Ciências de Lisboa, Notário Apostólico, bibliotecário e autorizado por Sua Alteza Real para dar fé dos mesmos originais…” (Torre do Tombo, 7/5/1803). Era, em termos modernos, um misto de investigador, arquivista, filólogo, jurista e certificador oficial de documentos históricos. A sua capacidade de decifrar escritos antigos faz dele uma figura comparável aos grandes paleógrafos europeus. O mundo de Viterbo é o mesmo de: • Garrett, que mais tarde lamentaria o desaparecimento das tradições antigas (cf. Romanceiro, 1843); • Alexandre Herculano, cujo trabalho de reconstrução da história medieval portuguesa dialoga diretamente com o tipo de fontes que o Elucidário ajuda a compreender; • A pintura de Vieira Lusitano ou Domingos Sequeira, onde se sente a transição entre o Barroco tardio e o Neoclassicismo que marcou a vida cultural portuguesa. • Na Europa, é também a época das grandes coleções científicas retratadas por artistas como Giovanni Battista Piranesi, cujo fascínio pelas ruínas e pela arqueologia encontra eco no trabalho de Frei Joaquim sobre os “vestígios” da língua. Ainda que Viterbo não seja mencionado diretamente por estes autores, o seu trabalho insere-se na matriz cultural que inspirou muitos dos debates sobre identidade nacional, tradição e memória colectiva. Os últimos anos da sua vida foram passados no Convento de Santo Cristo da Fraga, em Ferreira de Aves — um lugar isolado, quase ascético, que lembra os cenários solitários pintados por Carlos Reis ou Silva Porto, onde a natureza envolve a biografia. Foi ali que morreu em 1822, em recolhimento absoluto, depois de uma vida dedicada à palavra, à pesquisa e à preservação da cultura portuguesa. Em dezembro de 1999, a Escola Secundária de Sátão escolheu Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo como patrono. É uma escolha profundamente enraizada na identidade local, mas também uma homenagem a um intelectual que transcende fronteiras geográficas: um homem que deu à língua portuguesa uma memória de longo alcance. Referências Históricas e científicas • DU CANGE, Charles. Glossarium Mediae et Infimae Latinitatis. Paris, 1678. • ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Memórias da Academia. (Várias edições). • SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal – O Século XVIII. Lisboa: Verbo. • RODRIGUES, Luís de Almeida. Paleografia e Diplomática Portuguesa. Coimbra: Almedina. Literárias • HERCULANO, Alexandre. Opúsculos. • GARRETT, Almeida. O Romanceiro. • PESSOA, Fernando. “A língua portuguesa é a minha pátria.” Pictóricas • SEQUEIRA, Domingos. A Morte de Camões (c. 1825). • VIEIRA LUSITANO. Retratos da Época Joanina. • PIRANESI, Giovanni Battista. Vedute di Roma (séc. XVIII). • CARLOS REIS. Paisagens do Centro de Portugal. Revisitar Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo é recordar que o passado não é uma peça de museu, mas um conjunto vivo de palavras, documentos e tradições que continuam a moldar quem somos. O Elucidário é mais do que um livro antigo — é uma bússola para ler a história e compreender a identidade portuguesa. A escolha do seu nome como patrono da Escola Secundária de Sátão é, por isso, profundamente justa: homenageia não apenas um homem erudito, mas alguém que dedicou a vida a garantir que a memória não se perdesse. Num tempo em que tudo é rápido, Viterbo lembra-nos o valor do rigor, da paciência e do brilho silencioso dos arquivos. Aristides de Amorim Girão (1895–1960) Foi um nome incontornável da geografia portuguesa do século XX. Nasceu em Fataunços, no concelho de Vouzela, numa região onde a relação entre relevo, agricultura e povoamento é particularmente evidente — um dado biográfico que não deixa de dialogar com o seu futuro interesse pelo território e pelas paisagens humanas. Formou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, instituição com a qual manteria uma ligação profunda e duradoura. Em 1922, concluiu o doutoramento em Ciências Geográficas, numa época em que a geografia se afirmava como disciplina científica autónoma em Portugal, muito influenciada pelo pensamento francês, em especial pela obra de Paul Vidal de la Blache e pela chamada géographie humaine. Tal como defendia Vidal, também Girão valorizava a observação direta do terreno, o estudo das regiões e a interação entre o meio físico e as atividades humanas. Enquanto professor da Faculdade de Letras de Coimbra, teve um papel decisivo na formação de várias gerações de geógrafos. Foi ainda Director da Faculdade por duas vezes, sinal do reconhecimento académico e institucional do seu trabalho. A sua carreira desenvolveu-se num período marcado por fortes transformações políticas e culturais, em que a geografia era chamada a pensar o território nacional, a sua organização e as suas desigualdades regionais — uma preocupação visível também em autores contemporâneos como Orlando Ribeiro, com quem partilha afinidades metodológicas e científicas. Inserido na chamada Escola Geográfica de Coimbra, Aristides Girão contribuiu para uma geografia atenta à paisagem, entendida não apenas como cenário natural, mas como resultado de processos históricos e sociais. Essa leitura dialoga com abordagens culturais mais amplas do território, presentes tanto na literatura portuguesa — pense-se nas descrições rurais de Aquilino Ribeiro, onde a Beira surge como espaço vivido e simbólico — como na pintura naturalista e neo-realista portuguesa, onde a paisagem rural é frequentemente tratada como expressão de identidade e condição social (casos de Carlos Botelho, Abel Manta ou, mais tarde, Júlio Pomar, já numa chave crítica). Do ponto de vista científico, a sua obra insere-se numa tradição que valoriza o trabalho de campo, a cartografia e a descrição rigorosa das regiões portuguesas, antecipando preocupações que hoje associamos à geografia cultural e à geografia do território. A paisagem, para Girão, não era apenas objeto de estudo, mas também documento histórico, ideia que encontra eco em reflexões posteriores de geógrafos e historiadores do espaço. Embora atualmente menos conhecido fora do meio académico, Aristides de Amorim Girão desempenhou um papel fundamental na consolidação da geografia moderna em Portugal. A sua ligação a Coimbra, o seu contributo científico e o seu envolvimento institucional ajudaram a construir uma forma de pensar o território que cruza ciência, cultura e identidade. Revisitar a sua obra é também revisitar uma época em que a geografia procurava compreender o país a partir da paisagem, da região e da experiência humana — uma herança que continua relevante no modo como hoje olhamos o espaço português. Alexandre Alves Natural de Mangualde, Alexandre Alves(1921-2008) Apesar de ter seguido a carreira de bancário, nunca deixou de lado a sua verdadeira vocação: a investigação histórica. Em Lisboa, onde viveu vários anos, passava as horas livres entre a Biblioteca Nacional de Portugal e a Torre do Tombo, explorando manuscritos e pergaminhos com a paciência de um monge e o entusiasmo de quem acredita que cada documento é uma cápsula de tempo. A sua dedicação recorda o espírito de Marc Bloch, que no clássico Apologie pour l’Histoire (1949) lembrava que “o bom historiador é como o ogre das lendas: onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua presa”. Depois do 25 de Abril, regressou a Viseu, deixou o emprego na Caixa Geral de Depósitos e passou a dedicar-se inteiramente à investigação, frequentando assiduamente a Biblioteca Municipal e o Arquivo Distrital. foi, durante 28 anos, diretor da revista Beira Alta e responsável pela transcrição de milhares de documentos antigos, tornando acessível a muitos investigadores o passado da região. Era uma daquelas figuras discretas, mas indispensáveis: quem hoje se aventura num estudo sobre o distrito de Viseu acaba inevitavelmente por se cruzar com o seu nome, com as suas transcrições meticulosas e com o seu rigor quase artesanal — um rigor que lembra o cuidado dos copistas medievais descritos por Umberto Eco em O Nome da Rosa, onde o saber se guardava letra a letra, em silêncio e paciência. Depois do 25 de Abril, regressou a Viseu, deixou o cargo que ocupava na Caixa Geral de Depósitos e entregou-se por completo à pesquisa, frequentando a Biblioteca Municipal e o Arquivo Distrital — espaços que para ele eram verdadeiros templos de memória. . Foi, durante 28 anos, diretor da revista Beira Alta e responsável pela transcrição de milhares de documentos antigos, tornando acessível a muitos investigadores o passado da região. Era uma daquelas figuras discretas, mas indispensáveis: quem hoje se aventura num estudo sobre o distrito de Viseu acaba inevitavelmente por se cruzar com o seu nome, com as suas transcrições meticulosas e com o seu rigor quase artesanal — um rigor que lembra o cuidado dos copistas medievais descritos por Umberto Eco em O Nome da Rosa, onde o saber se guardava letra a letra, em silêncio e paciência. Muitos ainda se lembram de o ver mergulhado em pilhas de papéis, sempre com o mesmo ar concentrado e sereno. Dizem os amigos que foi o primeiro morador do Bairro do Cerrado — e que chegou a transformar a garagem de casa numa biblioteca improvisada, repleta de livros, pastas e mapas, como se o tempo ali se guardasse em papel. A palavra de Alexandre Alves rapidamente se tornou respeitada Muitos investigadores reconhecem-lhe o mérito de ter sido pioneiro na leitura e transcrição de documentos antigos, uma arte que exigia não apenas técnica paleográfica, mas também sensibilidade histórica — a capacidade de ouvir o que o papel quase já não dizia. As suas transcrições são hoje fontes insubstituíveis, verdadeiros tesouros para quem estuda a Beira Alta, comparáveis, em importância regional, ao trabalho de Alexandre Herculano na construção da memória documental portuguesa. Ao longo da vida, escreveu centenas de artigos para a Beira Alta, e em 2001 o Governo Civil de Viseu reuniu uma parte significativa dessa produção numa obra monumental de três volumes, que continua a ser uma referência obrigatória para quem se interessa pela história e pela identidade regional. Nesse sentido, o seu contributo aproxima-se do espírito de José Mattoso — outro historiador que soube transformar o arquivo num espaço vivo, onde o passado e o presente dialogam. O último artigo de Alexandre Alves foi publicado pela Revista do Museu Municipal de Viseu, durante um colóquio dedicado à problemática judaica em Viseu — um tema que o fascinava, e no qual se destaca a sua atenção à presença sefardita e às memórias das comunidades judaicas que marcaram a cidade desde a Idade Média. O seu interesse ecoa o de autores como Maria José Ferro Tavares, que também estudou o quotidiano e a perseguição dos judeus em território ibérico. Homem de outro tempo, apaixonado pelos arquivos e pela minúcia dos detalhes, Alexandre Alves soube unir o rigor académico à curiosidade popular, fazendo pontes entre o passado e o presente, entre os eruditos e as gentes da terra. Talvez por isso, o seu trabalho tenha uma dimensão quase pictórica — como nos quadros de Carlos Botelho ou Eduardo Malta, que retrataram Lisboa e as suas gentes com o mesmo olhar afetuoso e atento ao detalhe que Alexandre Alves dedicava à Beira. A homenagem que recebeu — ver o seu nome inscrito numa rua de Viseu — foi uma forma justa e simbólica de o manter vivo na cidade que tanto estudou e amou. Afinal, as ruas também contam histórias, como lembrava José Saramago em Viagem a Portugal: “O que é uma rua senão um livro de pedra que se percorre com os pés?”. E esta, em particular, lembrará o homem que fez da Beira Alta o seu território de memória — o guardião silencioso de um património que continua a inspirar quem acredita que a história local é, afinal, a alma de um povo. Referências • 1-Bloch, Marc (1949). Apologie pour l’Histoire ou Métier d’Historien. Paris: Armand Colin. • 2-Eco, Umberto (1980). Il nome della rosa. Milano: Bompiani. • 3-Mattoso, José (1997). A Escrita da História. Lisboa: Círculo de Leitores. • 4-Tavares, Maria José Ferro (1982). Os Judeus em Portugal no Século XV. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. • 5-Saramago, José (1981). Viagem a Portugal. Lisboa: Caminho. • 6-Herculano, Alexandre (1856). Portugaliae Monumenta Historica. Lisboa: Academia das Ciências.

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