Médicos globais Ribadouro
RIBADOURO
Duarte Madeira Arrais(1580-1652)
Duarte Madeira Arrais (1580-1652) nasceu em Moimenta da Beira e foi um dos médicos mais notáveis do século XVII em Portugal. Formou-se em Coimbra, onde estudou Humanidades, Filosofia e Medicina, num tempo em que a universidade era um dos principais centros de circulação de ideias do país. Viveu numa época de transição — a Restauração de 1640 devolvera a independência a Portugal e a corte de D. João IV procurava reforçar o prestígio cultural e científico do reino. É neste ambiente que Madeira Arrais se afirma como médico régio, o que revela o seu estatuto e reconhecimento.
Era célebre pela precisão quase lendária dos seus diagnósticos e tratamentos, chegando a ser-lhe atribuída uma espécie de “infalibilidade médica” — algo raro num período em que a medicina ainda se debatia entre o empirismo tradicional e as primeiras luzes da ciência moderna.
Foi também um autor prolífico. Entre as suas obras destacam-se:
• Método de Conhecer e Curar o Morbo Gálico (1642) — um estudo detalhado sobre a sífilis, então um dos maiores desafios da saúde pública europeia (cf. Frith, 2012).
• Apologia (1638) — em que defende a prática das sangrias de pés, técnica comum na medicina humoral para “equilibrar os humores”.
• Nova Filosofia da Medicina (1640) — onde propõe uma visão mais racional da prática médica, ainda que não rompa totalmente com as tradições galénicas.
A sua obra mais conhecida é, sem dúvida, o Tratado de Óleos (1648), dedicado a D. João IV. Neste texto, Madeira Arrais advoga a moderação no uso de sangrias e purgas, elogia os óleos obtidos por destilação — que considera mais eficazes — e revela um domínio de técnicas então sofisticadas como destilação, sublimação e fermentação. Estas práticas conferiam novas propriedades a plantas, minerais e substâncias animais, tornando os remédios mais potentes e de melhor assimilação. É curioso pensar que estas técnicas, usadas nas boticas, são as mesmas que deram origem a produtos tão populares como o uisge beatha escocês (whisky), destilado pela primeira vez em mosteiros medievais (Braidwood, 1995).
Apesar de se sentirem ecos do pensamento de Paracelso (1493-1541), o “médico alquimista” que revolucionou a medicina renascentista ao introduzir o uso de minerais e químicos na terapêutica, o Tratado de Óleos de Madeira Arrais não é um manual de alquimia. Está longe de ser um repositório esotérico de receitas herméticas; é antes o esforço de um clínico que pretendia aliar tradição e inovação, num equilíbrio entre o saber livresco e a prática quotidiana — algo que lembra a tensão entre o velho mundo galénico e a nova ciência experimental que emergia na Europa de Descartes, Harvey e Boyle.
A edição de 1993 da Salamandra, com introdução de Yvette K. Centeno, é uma das mais cuidadas para quem quer conhecer o texto. A introdução cumpre bem a função de contextualizar o autor, embora incorra em alguns pequenos deslizes técnicos — como ao identificar o “óleo de enxofre” referido por Madeira Arrais com o oleum vitrioli alquímico, quando, no seu contexto, o enxofre é apenas enxofre, e o vitríolo apenas sulfato.
Ler Madeira Arrais é como abrir uma janela para o século XVII. Encontramos nele um retrato vivo de uma medicina em transição: entre a botica e o laboratório, entre as crenças humoralistas e os primeiros passos da racionalidade científica. Um tempo em que a prática médica se fazia de observação, tentativas e algum engenho — mas também de fé.
Duarte Madeira Arrais é uma figura fascinante que nos lembra que a história da medicina é uma narrativa feita de avanços, recuos e debates apaixonados. O seu trabalho é, ao mesmo tempo, herdeiro da tradição e prenúncio da modernidade. Se estivesse entre nós hoje, talvez escrevesse num blog de medicina integrativa, discutindo a fitoterapia, ou fosse conferencista em congressos de farmacognosia a falar sobre os óleos essenciais de alecrim e salva.
No fundo, Madeira Arrais deixou-nos algo mais do que receitas e métodos: deixou-nos um testemunho sobre como se pensava a saúde e a doença, como se destilava a esperança no corpo e na alma dos portugueses do século XVII
Referências
1-Braidwood, R. (1995). A Short History of Distillation. London: Royal Society of Chemistry.
2-Centeno, Y. K. (1993). Introdução ao Tratado de Óleos de Duarte Madeira Arrais. Lisboa: Salamandra.
3- Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág147
Frith, J. (2012). “Syphilis – Its Early History and Treatment until Penicillin and the Debate on its Origins.” Journal of Military and Veterans’ Health 20(4): 49-58.
4-Paracelsus, T. (1567). Archidoxis Magicae. Basel.
5-Pires de Lima, J. (1954). História da Medicina em Portugal: Séculos XV-XVIII. Coimbra: Atlântida.
6-Representações pictóricas: ver gravuras médicas do século XVII em Wellcome Collection, Londres — especialmente os retratos de médicos e boticários em ambiente de destilação.
António Correia de Lacerda(1777-1852)
António Correia de Lacerda nasceu em Vila Da Ponte concelho Sernancelhe, em 1777, e morreu em 1852, no Maranhão, no Brasil — um percurso de vida que já diz muito sobre o seu tempo: um tempo de viagens, ciência e ligação constante entre Portugal e o outro lado do Atlântico.
Estudou Medicina na Universidade de Coimbra, onde concluiu o curso em 1801. Coimbra, nesta altura, era um centro importante de difusão das ideias científicas modernas, muito influenciado pelo espírito iluminista. Ainda assim, Lacerda não ficou apenas pela teoria. Em 1809, em pleno contexto das Guerras Peninsulares, exerceu funções como médico militar, servindo sob as ordens do general Francisco da Silveira. Esta experiência, provavelmente dura e exigente, terá moldado a sua prática médica, aproximando-o da realidade concreta da doença e da necessidade de soluções rápidas e eficazes. Após este período, exerceu medicina em São Pedro do Sul, mas rapidamente o seu percurso ganhou uma dimensão mais ampla. Em 1817, encontrava-se já no Pará, no Brasil — um território rico em biodiversidade e cheio de possibilidades para quem tinha curiosidade científica. Mais tarde, passou ainda pelos Estados Unidos da América, onde permaneceu até 1836, algo pouco comum para um português da época e revelador de um espírito inquieto e aberto ao mundo. Regressou depois ao Brasil, fixando-se em São Luís do Maranhão, onde viria a desenvolver grande parte do seu trabalho até ao fim da vida.
Para além da medicina, destacou-se sobretudo nas áreas da Botânica e da Zoologia. Tal como outros naturalistas influenciados por figuras como Carl Linnaeus ou Alexander von Humboldt, Lacerda dedicou-se à observação, classificação e estudo da natureza. A partir de 1821, publicou várias obras relevantes, entre as quais: Flora Paranaense e Maranhense, Nova Genera Plantarum Quimiologia Vegetal (em dois volumes) Zoologia Paranense (em nove volumes) Observações sobre as Propriedades Terapêuticas das Plantas
Este conjunto de trabalhos revela um perfil típico do médico-naturalista: alguém que não separava a medicina da natureza, vendo nas plantas não apenas objetos de estudo, mas também ferramentas terapêuticas.Para compreender melhor o trabalho de Lacerda, é importante lembrar que, na sua época, a medicina ainda dependia fortemente das plantas. Muito antes da indústria farmacêutica, os tratamentos baseavam-se em infusões, extratos e preparações naturais — um conhecimento que vinha desde Hipócrates e Dioscórides, e que atravessou séculos. No fundo, existiam dois mundos que se cruzavam constantemente: o saber popular (curandeiros, tradições locais, conhecimentos indígenas) e o saber científico (médicos formados, como Lacerda) Ao estudar as propriedades terapêuticas das plantas, Lacerda estava precisamente a fazer essa ponte — a transformar conhecimento empírico em algo mais sistemático e observável.
O contacto com o Brasil foi decisivo. A enorme diversidade de plantas tropicais oferecia novas possibilidades terapêuticas e despertava o interesse de naturalistas de todo o mundo, como Alexandre Rodrigues Ferreira. Muitas dessas plantas tinham usos já conhecidos pelas populações locais, e o trabalho de cientistas como Lacerda ajudava a registar, testar e difundir esse conhecimento. Ao mesmo tempo, obras como Quimiologia Vegetal mostram que ele já participava numa mudança importante: a tentativa de perceber os princípios ativos das plantas — um passo fundamental para o nascimento da farmacologia moderna.
António Correia de Lacerda é um daqueles nomes que a história não colocou no centro, mas que ajudam a perceber melhor uma época de transição. Médico, viajante e naturalista, viveu entre continentes e entre formas de conhecimento — entre a tradição e a ciência moderna. O seu trabalho com plantas medicinais mostra bem esse momento charneira: quando a floresta ainda era farmácia, mas começava a transformar-se em laboratório. Entre infusões e classificações, entre observação e experiência, Lacerda contribuiu para um caminho que levaria, mais tarde, à medicina tal como a conhecemos hoje. No fundo, a sua história lembra-nos de algo simples: antes dos comprimidos e das fórmulas químicas, foi na natureza — e no olhar atento de pessoas como ele — que começou grande parte da cura.
Referências
Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág130
Moreno Armando, Médicos Escritores Portugueses vol. III Pág 177
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José Leite de Vasconcelos(1858-1941) — o médico que cuidou de Portugal com palavras
José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo nasceu em Ucanha, Tarouca, em 1858, e morreu em Lisboa, em 1941. Licenciou-se em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, em 1886, mas exerceu apenas por alguns meses. Rapidamente entendeu que o corpo que o fascinava não era o humano, mas o corpo da língua e o corpo simbólico do povo português — essa matéria viva feita de palavras, crenças, gestos e memórias.
Homem de ciência e de sensibilidade rara, Leite de Vasconcelos dedicou-se à filologia, à arqueologia e à etnologia, tornando-se uma das figuras mais completas e singulares da cultura portuguesa contemporânea. Foi também considerado filósofo, historiador, poeta e numismata — um verdadeiro humanista no sentido renascentista do termo, daqueles que viam beleza e conhecimento nas coisas pequenas.
Depois de deixar a medicina, fundou em 1889 a Revista Lusitana, dedicada à filologia e à etnologia, reunindo colaborações de estudiosos portugueses e estrangeiros. Foi conservador da Biblioteca Nacional de Lisboa, professor do Liceu Central e docente da Academia de Estudos Livres, mas o seu nome ficará para sempre ligado ao Museu Etnológico Português, atual Museu Nacional de Arqueologia, que fundou e dirigiu.
Ali, reuniu milhares de objetos, utensílios, trajes, instrumentos e obras populares, movido pela convicção de que “as coisas humildes também têm história”. O seu olhar sobre o quotidiano antecipa o que o antropólogo Clifford Geertz chamaria, décadas mais tarde, de “descrição densa”: compreender a cultura através dos seus gestos e símbolos mais banais.
Leite de Vasconcelos foi, assim, o primeiro grande etnógrafo português. Enquanto Teófilo Braga e Adolfo Coelho teorizavam o “espírito nacional”, ele andava pelos caminhos rurais de Beiras, Trás-os-Montes e Alentejo, caderno na mão, anotando dialectos, lendas, crenças e superstições. Era um cientista andarilho, que via nas vozes do povo a mesma riqueza que outros viam nas bibliotecas.
Em 1901, concluiu o curso de Letras na Universidade de Paris — experiência decisiva para a consolidação da sua erudição humanista. Com a criação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tornou-se professor de Filologia Clássica e, mais tarde, de Filologia Românica, lecionando também Francês e Literatura Francesa.
Foi presidente honorário da Associação dos Arqueólogos Portugueses e recebeu distinções como a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e a Medalha de Ouro de Mérito Municipal de Lisboa. Em 1937, foi-lhe erguido um busto no Museu Etnológico, e desde 1949 o seu nome dá vida a ruas em Lisboa (freguesia de São Vicente de Fora) e Coimbra.
A sua obra, de rigor científico e sensibilidade literária, é vastíssima e multitemática. Entre os títulos mais relevantes, destacam-se:
• Poema da Alma
• Cancioneiro Português
• A Dor de Camões
• Do Dialeto Mirandês
• A Barba em Portugal
• A Figa
• Portugal Pré-Histórico
• Linguagem Popular Portuguesa
• Dialetos Beirões
• Religiões da Lusitânia (3 volumes)
• Textos Arcaicos
• Medicina dos Lusitanos
• Origem do Povo Português
• De Terra em Terra (2 volumes)
• A Ucanha e o seu Pelourinho
• e, sobretudo, a monumental Etnografia Portuguesa (10 volumes), que é, ainda hoje, o alicerce da etnologia nacional.
Essa obra é um verdadeiro inventário da alma portuguesa — uma tentativa de salvar, pela escrita, aquilo que estava a desaparecer com a modernização do país. Como escreveu o antropólogo Jorge Dias, “sem Leite de Vasconcelos, a etnologia portuguesa não teria alicerces” (Estudos de Antropologia Portuguesa, 1965).
E o linguista Ivo Castro viria a sublinhar que “a história da língua portuguesa se confunde, em boa parte, com o trabalho de Leite de Vasconcelos” (História da Língua Portuguesa, 2006).
A época de Leite de Vasconcelos foi também a dos pintores e escritores que, à semelhança dele, procuravam representar o povo português com autenticidade. Basta pensar nas pinturas naturalistas de José Malhoa (O Fado, 1910) e de Columbano Bordalo Pinheiro, que fixaram o quotidiano popular, ou nas descrições literárias de Raul Brandão (Os Pescadores, 1923) e Aquilino Ribeiro (Quando os Lobos Uivam, 1958), herdeiros do mesmo impulso etnográfico e poético.
Todos partilhavam o desejo de dar visibilidade à vida anónima: às vozes das aldeias, às festas, às superstições e ao trabalho humilde — o mesmo universo que Leite de Vasconcelos estudava com método científico.
O seu olhar aproxima-se também da sensibilidade de Miguel Torga, que mais tarde escreveria: “O universal é o local sem paredes” — frase que poderia servir de lema ao seu projeto de vida.
Leite de Vasconcelos viveu entre a ciência e a poesia, entre o rigor da arqueologia e a ternura pelas palavras do povo. Em obras como Medicina dos Lusitanos, explorou o diálogo entre saber empírico e tradição oral, antecipando temas que hoje voltam a interessar à antropologia médica e à etno-história.
A sua curiosidade insaciável e o desejo de compreender o “espírito português” fazem dele uma figura irmã de Fernando Pessoa, que, de outro modo, também procurou as múltiplas vozes da identidade nacional. Ambos partilhavam a crença de que Portugal é, acima de tudo, uma pluralidade de linguagens e almas.
Leite de Vasconcelos foi, em todos os sentidos, um médico da alma coletiva. Substituiu o bisturi pela caneta e dedicou a vida a compreender o que faz de nós um povo: o idioma, os gestos, os ritos e os afetos. Recolheu, estudou e preservou o património imaterial português com a paciência de quem sabe que as culturas morrem quando deixam de se ouvir.
Num país tantas vezes amnésico, ele foi o guardião da memória viva, o etnógrafo que deu voz àquilo que o progresso ameaçava silenciar.
Hoje, ao ler a sua Etnografia Portuguesa, percebemos que Leite de Vasconcelos não escreveu apenas sobre o passado — escreveu sobre a persistência do humano no tempo, sobre o modo como a tradição e a ciência podem coexistir, e sobre a delicada arte de escutar o povo.
Referências
• Leite de Vasconcelos, J. (1933–1942). Etnografia Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional.
• Dias, J. (1965). Estudos de Antropologia Portuguesa. Lisboa: Instituto de Alta Cultura.
• Castro, I. (2006). História da Língua Portuguesa. Lisboa: Colibri.
• Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág143
• Fernandes, P. J. (2001). “Leite de Vasconcelos e o nascimento da etnologia em Portugal”. Revista de História das Ideias, Universidade de Coimbra.
• Coelho, A. (1892). Os Ciganos de Portugal. Lisboa: Tipografia da Academia Real das Ciências.
• Braga, T. (1885). O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições. Lisboa: Bertrand.
• Ribeiro, A. (1958). Quando os Lobos Uivam. Lisboa: Bertrand.
• Brandão, R. (1923). Os Pescadores. Porto: Renascença Portuguesa.
• Torga, M. (1951). Diário. Coimbra: Atlântida.
• Malhoa, J. (1910). O Fado. Museu do Chiado, Lisboa.
• Bordalo Pinheiro, C. (1891). Retrato de Antero de Quental. Museu Nacional de Arte Contemporânea.
• Columbano B. Pinheiro (1905). O Grupo do Leão. Museu do Chiado.
• Relacionar ainda com a pintura etnográfica de Silva Porto e Henrique Pousão, e com o espírito realista da geração de 1870.
José da Gama e Castro (1795-1873)
José da Gama e Castro nasceu em Sernancelhe, em 1795, e morreu em Paris, em 1873. Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, numa época em que a medicina ainda se encontrava em transição entre práticas tradicionais e os primeiros avanços científicos modernos. Como muitos intelectuais do século XIX, a sua formação não se limitou à medicina: envolveu-se profundamente nas questões políticas e ideológicas do seu tempo.
Destacou-se como um partidário convicto da causa de D. Miguel, posicionando-se claramente no campo do absolutismo, em oposição ao liberalismo emergente em Portugal após a Revolução Liberal de 1820. Esta divisão ideológica marcou profundamente o país, culminando na Guerra Civil Portuguesa (1828–1834), também conhecida como Guerras Liberais, um dos grandes conflitos do século XIX em Portugal.
Após a derrota da causa miguelista, Gama e Castro manteve as suas convicções políticas. Em dezembro de 1834, perante o novo contexto liberal, foi forçado a sair do país. Junta-se então a D. Miguel no exílio, em Roma, onde o príncipe deposto se encontrava após a derrota. Nesse contexto, Gama e Castro é nomeado para uma missão junto do arquiduque Francisco IV, o que demonstra a confiança política depositada nele.
Em Roma, funda o jornal O Percursor, um órgão de propaganda miguelista no exílio, com circulação pela Europa. Os seus textos, marcados por forte intensidade retórica e crítica ao liberalismo, refletem bem o ambiente político europeu da época, em que os debates ideológicos eram frequentemente inflamados. Este tipo de escrita pode ser aproximado, em termos de estilo polémico, a outros autores do século XIX, como certos panfletários políticos franceses pós-Revolução, num contexto em que a imprensa desempenhava um papel central na formação da opinião pública.
A sua atividade não passou despercebida. A ação dos diplomatas ingleses — num período em que a Inglaterra apoiava o liberalismo constitucional — acabou por pressionar a sua saída de Módena. Mais tarde, em Milão, encontra proteção junto das autoridades locais, o que lhe permite continuar a escrever. É neste contexto que surge a obra Apocalipse político, publicada em Lugano, um título que já revela o tom crítico e quase visionário da sua escrita, evocando uma leitura dramática da crise política europeia.
Entre 1837 e 1838, vive na Suíça e na Alemanha, espaços que, à época, eram importantes centros de circulação de ideias científicas e filosóficas. Posteriormente, em 1838, parte para o Rio de Janeiro, onde se integra na vida intelectual brasileira. No Brasil, lança novos periódicos e colabora no Jornal do Commercio, um dos mais importantes veículos de imprensa do período imperial.
Escreve sobre temas científicos e literários, destacando-se pela polémica tese de que os brasileiros não possuíam uma literatura original. Esta posição insere-se num debate mais amplo sobre identidade cultural e nacional, que também pode ser relacionado com autores como José de Alencar, que, em sentido contrário, defendia a autonomia e originalidade da literatura brasileira. O próprio século XIX foi marcado por estas disputas simbólicas sobre identidade, literatura e nação.
Gama e Castro reivindicou ainda a prioridade de Bartolomeu de Gusmão na invenção da navegação aerostática, reforçando o seu interesse pela valorização de figuras científicas portuguesas. Este tipo de reivindicação insere-se numa tradição de afirmação nacional, frequentemente presente na historiografia e na literatura do período, onde se procurava recuperar e exaltar “heróis esquecidos” da ciência e da cultura.
A partir de 1842, envolve-se numa nova “cruzada”: a defesa da homeopatia, sistema médico criado por Samuel Hahnemann. Esta prática, bastante debatida no século XIX, gerou forte controvérsia entre médicos e cientistas, sendo criticada por alguns como não científica, mas defendida por outros como alternativa terapêutica. O próprio Gama e Castro torna-se uma voz ativa nesse debate, participando intensamente na imprensa.
José da Gama e Castro foi muito mais do que um médico: foi um intelectual profundamente envolvido nas grandes disputas ideológicas do século XIX. Entre o absolutismo e o liberalismo, entre a ciência e a polémica, entre a Europa e o exílio, construiu uma trajetória marcada pela escrita combativa e pela defesa de ideias firmes. A sua vida reflete um tempo de transição, em que ciência, política e cultura se cruzavam de forma intensa, mostrando como os intelectuais da época não se limitavam ao seu campo de formação, mas participavam ativamente na construção do pensamento moderno.
Referências
Bibliográficas:
• Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág109
• Saraiva, José Hermano (coord.) — História de Portugal
• Mattoso, José — História de Portugal
• Serrão, Joel — Dicionário de História de Portugal
• Alencar, José de — Iracema (para o contexto literário brasileiro)
• Hahnemann, Samuel — Organon da Arte de Curar (base da homeopatia)
Sobral Cid(1877-1941): o médico que combinou ciência e humanidade
Se você já ouviu falar em psiquiatria portuguesa do início do século XX, provavelmente já cruzou com o nome José de Matos Sobral Cid(1877-1941) (Cambres-, Lamego, 29 de junho de 1877 — Lisboa, 28 de abril de 1941).Doutorado em Coimbra em 1901, pertenceu à geração de Elísio de Moura e Egas Moniz prestou provas para lente da Faculdade de medicina com a dissertação Coimbra Demografia e Higiene o seu interesse pela psiquiatria levava-o semanalmente ao Porto para lições de Júlio de Matos. Insurgiu-se com a estrutura Napoleónica da Universidade Portuguesa e solicitou ,inspirando-se no modelo das Universidades alemãs, que esta se regenerasse , assente na dupla base -autonomia corporativa e livre investigação científica- de forma a desempenhar, a sua tríplice função. Preparar o profissional para a carreira, o cidadão para o Estado e o homem para a Ciência(2)
Com a revolução republicana e a reforma do ensino médico que cria em Lisboa e no porto, transfere-se para Lisboa, onde começou por trabalhar como adjunto no Hospital de Rilhafoles e como professor do Curso de Psiquiatria Forense (1911), antes de reger a cadeira após a morte de Júlio de Matos. Esteve filiado no partido Regenerador do qual abdicou. Foi deputado monárquico e Governador Civil de Coimbra (1903-1904). Não se livrou de acusações de “adesivagem “ após a proclamação da República em 1910.Foi também Ministro da Instrução Pública em dois governos da Primeira República (1914) de Bernardino Machado. Depois desta experiência remete-se durante o resto da República e Estado Novo para fora do campo político
Sobral Cid ajudou a criar a escola portuguesa de psiquiatria clínica, baseada em conceitos claros, semiologia psiquiátrica e psicopatológica rigorosa e, acima de tudo, na atenção ao ser humano por trás do paciente. A sua obra reflete a luta dialética entre tendências organicistas e psicológicas para o qual a qual não pode encontrar “a necessária síntese” como opina Barahona Fernandes o discípulo que mais escreveu sobre sua obra.
Para ele, ciência e cuidado não se excluíam — eram complementares. Nas suas aulas, valorizava a escuta, o olhar atento e o diálogo, mostrando que a empatia não era apenas um “plus” da medicina, mas parte central do tratamento.
Ele sabia que a educação e a saúde caminhavam de mãos dadas e que mudar a sociedade exigia ação em diferentes frentes. Para além da vida académica e política, tinha interesse por cultura: publicou artigos na revista Atlântida (1915-1920), que reunia literatura, ciência e debate social entre Portugal e Brasil — um reflexo de sua mente curiosa e aberta.
O legado de Sobral Cid permanece vivo em Coimbra: o Hospital Sobral Cid, em Ceira, lembra diariamente profissionais e pacientes o seu contributo para a psiquiatria portuguesa Seu nome também aparece em retratos e ilustrações da época, como na revista Ilustração Portuguesa (1916), e em arquivos históricos da Universidade de Coimbra.
Sobral Cid foi daqueles médicos que deixaram muito mais do que artigos ou livros: deixou uma forma de estar no mundo, de unir ciência e empatia, inovação e humanidade. Foi político, professor, pesquisador e humanista, e sua trajetória é um lembrete de que cuidar da mente exige tanto conhecimento quanto coração. Para quem gosta de história da medicina ou simplesmente de boas histórias de vida, Sobral Cid é um exemplo vivo de como dedicação, visão e humanidade podem caminhar lado a lado.
Referências
1- Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág 244
Pereira, José Morgado. O Professor Sobral Cid na história da psiquiatria portuguesa. Revista da Associação para o Estudo, Reflexão e Pesquisa em Psiquiatria e Saúde Mental, 1(1), 1996, pp. 8–9
.2-Pereira, José Morgado. A Psiquiatria em Portugal nas primeiras décadas do século XX pp207-208Colaborações de Sobral Cid na revista Atlântida (1915-1920), Hemeroteca
3-Digital.Ilustrações e retratos de Sobral Cid em arquivos da Universidade de Coimbra e publicações históricas como a Ilustração Portugueza (1916).Contexto literário e cultural: textos de 4- Egas Moniz, Bissaya Barreto e crônicas da primeira metade do século XX em Coimbra.
• Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág109
Cassiano Neves (1878-1946)
António Cassiano Pereira de Sousa Neves nasceu em Lamego, em 1878, e faleceu em Lisboa, em 1946. Formou-se em Filosofia e Medicina pela Universidade de Coimbra, numa época em que o pensamento médico ainda dialogava profundamente com a filosofia, permitindo uma abordagem mais ampla da doença e do doente.
Iniciou a sua atividade como médico do distrito, destacando-se rapidamente pela competência. Ao longo da sua carreira, ocupou diversos cargos de relevo: foi docente universitário e professor de Medicina Sanitária na Faculdade de Medicina de Lisboa, área fundamental no contexto da afirmação da saúde pública moderna.
Desempenhou funções em várias instituições marcantes da assistência médica portuguesa, nomeadamente como médico do Dispensário Rainha D. Amélia, diretor do Sanatório do Lumiar e Provedor da Assistência Pública de Lisboa. Foi ainda presidente da Comissão Executiva da Assistência Nacional aos Tuberculosos e diretor da mesma instituição, assumindo um papel central na organização da luta contra a tuberculose em Portugal.
Enquanto tisiologista, alcançou elevado prestígio nacional e internacional. A tuberculose, uma das principais causas de mortalidade na Europa entre os séculos XIX e XX, só começou a ser eficazmente tratada após a descoberta da estreptomicina por Selman Waksman em 1943. Até então, o combate à doença baseava-se em estratégias de saúde pública, como o isolamento em sanatórios, higiene e nutrição, seguindo os avanços iniciados por Robert Koch, que identificou o agente etiológico da tuberculose.
Paralelamente, desenvolveu atividade política relevante. Foi deputado por Lamego em 1905 e pelo Porto em 1910, num período marcado pela Implantação da República Portuguesa. Integrou o Partido Progressista e foi convidado por Fernandes Costa para Ministro do Trabalho, convite que recusou. Exerceu, no entanto, funções como governador civil de Lisboa por duas vezes, durante os governos de Bernardino Machado e Pimenta de Castro.
Foi agraciado com distinções honoríficas relevantes, como a Ordem de Santiago da Espada e a Grã-Cruz de ordem honorífica portuguesa, refletindo o reconhecimento do seu contributo científico e cívico.
A figura de António Cassiano Pereira de Sousa Neto Neves inscreve-se numa geração de médicos que operava numa fronteira delicada entre ciência em construção e urgência social. Num tempo em que a cura era incerta, o papel do médico expandia-se: era clínico, gestor, pedagogo e, muitas vezes, agente político.
A sua dedicação à tuberculose — doença simultaneamente biológica e social — revela bem essa complexidade. Tal como na literatura de Thomas Mann ou na pintura de Edvard Munch, a doença não era apenas um fenómeno clínico, mas uma experiência humana profunda.
No fundo, o seu percurso lembra-nos que a medicina não evolui isoladamente: constrói-se no cruzamento entre ciência, cultura e sociedade. E é precisamente nesse cruzamento que o seu legado ganha maior significado.
Bibliografia e referências
História da medicina e tuberculose
• Porter, R. (1997). The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins.
• Rosen, G. (1993). A History of Public Health. Baltimore: Johns Hopkins University Press.
• Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág179
• Daniel, T. M. (2006). The History of Tuberculosis. Respiratory Medicine, 100(11), 1862–1870.
Ciência e descobertas médicas
• Robert Koch (1882). Descoberta do Mycobacterium tuberculosis.
• Selman Waksman (1943). Descoberta da estreptomicina.
Literatura
• Thomas Mann (1924). A Montanha Mágica.
• Camilo Castelo Branco – obras diversas com representação do sofrimento e doença no século XIX.
Arte e representação da doença
• Edvard Munch (1885–86). A Criança Doente.
Contexto português (sugestões para aprofundamento)
• Arquivos da saúde pública portuguesa (Direção-Geral da Saúde)
• Estudos sobre a Assistência Nacional aos Tuberculosos
• História da Faculdade de Medicina de Lisboa
António de Paiva Gomes (Moimenta da Beira, 1878 – Lisboa 1939)
António de Paiva Gomes foi uma das figuras mais multifacetadas da história portuguesa do início do século XX: empresário agrícola, médico, militar, jornalista, político e maçom. A sua vida cruza mundos diversos — da ruralidade beirã às colónias ultramarinas, dos hospitais aos parlamentos e cargos governamentais — e reflete bem o Portugal transitório entre Monarquia e República.
Nascido em Leomil, Moimenta da Beira, António era filho de José Gomes Ferreira Pinto, médico de partido nos concelhos de Vila Nova de Foz Côa, Trancoso e Moimenta da Beira, e de Maria Isabel de Almeida de Paiva Gomes, numa família de forte presença local e intelectual.
Prosseguiu os estudos no Porto, na prestigiada Escola Médico-Cirúrgica, onde concluiu o bacharelato em 1902, um percurso académico então associado às elites médicas portuguesas e à participação em redes científicas do império colonial. Em 1903 matriculou-se na Escola de Medicina Tropical de Lisboa, instituição que formava médicos preparados para os desafios sanitários dos territórios ultramarinos. Conciliando a medicina com a carreira militar — onde subiu até Coronel — Paiva Gomes trabalhou em diferentes pontos do império português: em Lourenço Marques (atual Maputo, Moçambique), Macau e Timor.
Em Moçambique voltou duas vezes: de 1908 a 1911 e de 1934 até à sua morte em 1939, desempenhando funções de Guarda-Mor e Chefe Interino dos Serviços de Saúde Moçambicanos, além de dirigir o Hospital Miguel Bombarda em Lourenço Marques.
Este tipo de carreira, médica e administrativa nas colónias, era parte de uma tradição luso portuguesa de médicos militares que combinavam ciência, autoridade e gestão hospitalar nas franjas do império — um tema abordado em estudos sobre medicina colonial e ciência no império português.
Paiva Gomes integrou a Maçonaria — iniciado em 1904 na Loja Cruzeiro do Sul em Lourenço Marques, com o nome simbólico Câmara Pestana — uma associação que, no contexto português e ultramarino, servia de núcleo de troca de ideias republicanas, laicas e reformistas.
Político ativo, ele foi um dos protagonistas do Republicanismo Português nas colónias, desempenhando papel de agitador ideológico, sobretudo em Macau, Timor e Moçambique. Em Lourenço Marques fundou o jornal O Incondicional, veículo crítico ao regime monárquico que circulou até 1910.
Com a Proclamação da República (1910), regressou a Portugal e iniciou uma carreira parlamentar como Deputado por Moimenta da Beira (1911 1917). Teve também papel nos governos republicanos: foi Ministro das Finanças em 1919 e Ministro das Colónias em 1920 1921, tendo, ainda, breves nomeações interinas em 1925.
Paiva Gomes também foi Vogal do Conselho Superior de Finanças e, de 1924 a 1926, Juiz Conselheiro e 10.º Presidente do Tribunal de Contas, posições que evidenciam a sua inserção na administração pública de alto nível da Primeira República.
Como escritor, abordou as realidades coloniais que testemunhou diretamente:
• Quatorze annos de Timor, 1.ª série (1909)
• Timor – O governo do general de brigada José Celestino da Silva durante 14 annos
• Latrocínios, assassinatos e perseguições, 2.ª série (Lisboa, 1911)
Estas obras situam se na interseção entre relato de viagem, crónica colonial e crítica social — e têm importância para historiadores que estudam as dinâmicas do império e as perceções europeias dos territórios ultramarinos no início do século XX, como apontado em análises sobre a historiografia timorense.
Em 1918 foi condecorado com a 2.ª Classe da Ordem Militar de São Bento de Avis, distinção militar portuguesa que premiava serviços relevantes ao Estado. Na Maçonaria, alcançou o Grau 9.º do Rito Escocês Antigo e Aceite por volta de 1930, um reflexo da sua participação ativa em redes maçónicas de influência cultural e política.
António de Paiva Gomes é um exemplo paradigmático das figuras públicas portuguesas que cruzaram ciência, política, administração colonial e cultura no auge da Primeira República. A sua vida e obra cruzam temas que a historiografia contemporânea explora em várias disciplinas: desde a medicina tropical e colonial à política republicana e administração ultramarina, passando pelas relações entre ciência, Estado e império.
Esse cruzamento de discursos aparece também nas suas obras escritas, que oferecem hoje material para estudos literários e históricos sobre a presença portuguesa em Timor e a maneira como os portugueses viam, relatavam e interpretavam a vida colonial na viragem do século.Ao integrar referências bibliográficas e literárias, percebe se que Paiva Gomes não foi apenas um “político médico”: foi uma ponte entre mundos científicos e políticos, nacionais e ultramarinos — uma figura que ajuda a compreender as tensões e ambições do Portugal moderno nas suas expressões mais amplas.
Referências
Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág115
Fernando Ilharco (1901–1974)
Fernando António de Marcos Magalhães Ilharco nasceu em Lamego, em 1901, e morreu em Lisboa, em 1974. Formou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1923 e doutorou-se na mesma instituição em 1926. Desde muito cedo mostrou curiosidade pelo território complexo da mente humana, num tempo em que a psiquiatria se reinventava entre a ciência e a filosofia, entre o asilo e o laboratório.
Logo após a formatura, começou a frequentar as consultas de Sobral Cid no Hospital Miguel Bombarda, onde se formaram alguns dos nomes mais influentes da psiquiatria portuguesa. Sobral Cid (1877–1964), mestre de várias gerações, defendia uma visão médica e ao mesmo tempo humanista da loucura — mais próxima da observação clínica e da psicopatologia alemã do que da moralização que ainda marcava o século XIX. Ilharga herdou dele essa curiosidade científica e essa sensibilidade ética, que o levaram a uma carreira sólida e discreta, centrada no doente e não apenas no diagnóstico.
Foi médico psiquiatra do Hospital Miguel Bombarda até 1942, ano em que passou a chefe de serviço no Hospital Júlio de Matos, inaugurado nesse mesmo período. O novo hospital representava uma viragem institucional e simbólica: deixava-se para trás a arquitetura panótica do Bombarda e avançava-se para um modelo de tratamento mais aberto, inspirado nas ideias de desinstitucionalização e higiene mental (Almeida, 2014). Nesse contexto, Ilharga participou numa geração que via o hospital psiquiátrico não só como espaço de contenção, mas também de reabilitação e dignidade humana.
Na docência, foi assistente da cadeira de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa entre 1925 e 1943 e lecionou na Escola de Enfermagem de Alienados, em Évora, ligada aos dois grandes hospitais psiquiátricos de Lisboa. Essas escolas foram fundamentais para formar enfermeiros especializados — figuras invisíveis, mas essenciais na humanização da medicina mental. Como escreveu Miguel Torga, médico e escritor, “o homem é, antes de mais, um ser que sofre, e o médico, um que o escuta” (Diário, 1940). Essa escuta — feita de silêncio, empatia e paciência — foi talvez o que mais aproximou Ilharga do lado humano da psiquiatria.
O seu percurso enquadra-se numa época de transição científica. O século XX nascente foi marcado por uma tensão entre a visão biológica da doença mental e a emergência das teorias psicanalíticas e existenciais. Enquanto Freud explorava os subterrâneos do inconsciente, e Jaspers escrevia a sua Psicopatologia Geral (1913), os médicos portugueses tentavam adaptar essas ideias a uma realidade institucional e católica, nem sempre recetiva à inovação. Ilharga situava-se nesse meio-termo: um clínico atento, mas sem dogmatismos; um homem de ciência que via na mente humana tanto um mistério como um campo de estudo.
Visualmente, esse tempo foi também capturado por artistas como Van Gogh, cuja Autorretrato no Asilo de Saint-Rémy (1889) continua a simbolizar a dor psíquica e a sua ambígua beleza — e por pintores portugueses como Abel Manta e Dórdio Gomes, que representaram o sofrimento humano com cores contidas e rostos introspetivos, ecoando o olhar clínico dos médicos de então.
Ilharga pertenceu, assim, a uma geração que viu o manicómio como um espelho da sociedade e a doença mental como metáfora da própria condição moderna — uma ideia que atravessa tanto a literatura de António Lobo Antunes, psiquiatra e romancista, como as reflexões filosóficas de Michel Foucault, em História da Loucura (1961).
Pouco lembrado hoje, Fernando Ilharco foi parte de um esforço coletivo para construir uma psiquiatria portuguesa moderna, científica e humana. Representa o médico que olha o paciente não como objeto de estudo, mas como alguém que pede compreensão — e essa talvez seja a herança mais profunda da sua geração.
Num tempo em que a saúde mental voltou ao centro do debate público — entre o burnout, a solidão e a medicalização da vida —, vale recordar os médicos que, como Ilharga, insistiram em ver a mente para além da patologia. O seu trabalho, discreto, mas constante, integra a genealogia da reforma psiquiátrica portuguesa e antecipa o espírito do movimento anti manicomial e dos cuidados comunitários de saúde mental, que ganharam força nas décadas de 1970 e 1980.
Hoje, quando se fala de empatia, humanização e saúde mental global, a lição de Ilharco continua atual: compreender o sofrimento é também reconhecer a humanidade que nos liga.
Referências
• Almeida, M. A. P. (2014). O Hospital Júlio de Matos e a História da Psiquiatria em Portugal (1942–1974). Lisboa: Instituto de Ciências Sociais.
• Cid, J. Sobral (1930). A Loucura e a Psiquiatria em Portugal. Lisboa.
• Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág126
• Foucault, M. (1961). Histoire de la folie à l’âge classique. Paris: Plon.
• Jaspers, K. (1913). Allgemeine Psychopathologie. Berlin: Springer.
• Lobo Antunes, A. (2002). O Esplendor de Portugal. Lisboa: Dom Quixote.
• Torga, M. (1940). Diário. Coimbra: Atlântida.
• Van Gogh, V. (1889). Autorretrato no Asilo de Saint-Rémy [óleo sobre tela]. Musée d’Orsay, Paris.
Fraga de Azevedo (1906-1986)— entre os trópicos, a ciência e a curiosidade humana
Fraga de Azevedo nasceu em Sarzeda, freguesia de Sernancelhe, em 1906, e faleceu em Lisboa em 1986. Formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em 1929, e pouco depois, em 1930, ingressou como assistente livre no Instituto de Medicina Tropical. Era um tempo em que a ciência médica portuguesa se expandia em direção aos territórios ultramarinos, movida por um misto de curiosidade científica e missão sanitária.
Azevedo destacou-se cedo: foi aprovado como professor auxiliar de Zoologia Médica em 1938, e tornou-se professor efetivo em 1940, após concurso público. Em 1943, ascendeu ao cargo de diretor do Instituto de Medicina Tropical, função que exerceu com dedicação e competência até à sua reforma. À frente do Instituto, liderou diversas missões de investigação e estudo das doenças tropicais e parasitárias no Ultramar português — como a malária, a filaríase, a tripanossomíase e a esquistossomose —, doenças que marcavam profundamente a vida quotidiana de populações coloniais.
Em 1953, coordenou a Comissão Nacional de Ecologia Humana da Associação Científica do Oceano Índico, e foi nomeado perito da Organização Mundial da Saúde (OMS) em doenças parasitárias, reconhecimento que sublinha a relevância internacional do seu trabalho. Tornou-se também sócio honorário da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, e o seu nome permanece associado ao auge da medicina tropical portuguesa do século XX.
Entre o microscópio e o mundo--A trajetória de Fraga de Azevedo integra-se numa época em que a medicina não era apenas técnica, mas também aventura científica e experiência humana. As doenças tropicais eram estudadas como problemas biológicos, mas também sociais, ecológicos e civilizacionais. Essa visão ampla aproxima-o de figuras como Ricardo Jorge, pioneiro da saúde pública, ou Celestino da Costa, fisiologista e pedagogo, que viam a medicina como um campo de encontro entre ciência e ética.
Do ponto de vista contemporâneo, o pensamento de Azevedo antecipa a ideia de “One Health” — a noção moderna de que a saúde humana, animal e ambiental são dimensões inseparáveis. Essa sensibilidade ecológica e humanista, ainda que não nomeada, já estava presente na prática dos médicos tropicais que observavam o homem inserido nos seus climas, águas, parasitas e culturas.
Há também algo de literário e poético neste percurso. Fraga de Azevedo foi contemporâneo de Miguel Torga, outro médico formado em Coimbra, que escreveu em O Outro Livro de Torga (1959): “O médico é o sacerdote da carne e o confessor da dor.” Essa frase poderia bem servir de epígrafe à carreira de Azevedo, que via no sofrimento humano não apenas um objeto de estudo, mas uma forma de compreender o mundo.
A dimensão pictórica deste universo tropical também merece lembrança. Quadros como A Escola de Medicina Tropical (década de 1940), de Carlos Botelho, ou as representações científicas do Museu de Medicina de Lisboa, mostram a tensão entre o exotismo e a racionalidade científica — o fascínio visual dos parasitas vistos ao microscópio, lado a lado com as figuras humanas dos médicos, viajantes e pacientes.
Conclusão — o médico e o mundo--Fraga de Azevedo pertence àquela geração de médicos que transformaram o conhecimento em viagem, e a curiosidade em serviço público. Vindo de uma aldeia beirã, chegou aos trópicos pela via da ciência, movido por um olhar ao mesmo tempo rigoroso e humano. Hoje talvez o chamássemos de “cientista global”, mas ele foi, acima de tudo, um homem que acreditava que compreender a doença era também compreender a vida.
Referências
Fontes científicas e históricas
• Instituto de Medicina Tropical (Lisboa). Relatórios Anuais de Investigação Médica Tropical, 1930–1970.
• Organização Mundial da Saúde (OMS). Expert Committee on Parasitic Diseases: Reports and Proceedings, Genebra, 1953–1965.
• Braga de Macedo, J. (1999). História da Medicina Tropical em Portugal. Lisboa: Gradiva.
• Campos, M. A. (2007). Ricardo Jorge e a Saúde Pública em Portugal. Coimbra: Imprensa da Universidade.
• Costa M. F.(2010).Personalidades e Grandes Vultos da Medicina Portuguesa através dos séculos. Lidel Pág105
• Ferreira, J. L. (2015). A Medicina Tropical e o Império Português: ciência, poder e sociedade (1900–1975). Lisboa: ICS-UL.
• Torga, M. (1959). O Outro Livro de Torga. Coimbra: Coimbra Editora.
• Pessoa, F. (1934). Mensagem. Lisboa: Parceria A. M. Pereira. — Pela evocação simbólica do império e da viagem, em paralelo com a missão científica ultramarina.
• Botelho, C. (1943). A Escola de Medicina Tropical. Museu de Lisboa.
• Museu de Medicina (Lisboa). Coleção de Ilustrações Científicas de Doenças Tropicais, 1930–1950.
• Vieira da Silva, M. H. (1954). O Olhar Científico. Fundação Arpad Szenes–Vieira da Silva.
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